Há histórias que não podem se perder. Algumas atravessam gerações pela oralidade, outras permanecem guardadas em páginas, manuscritos e lembranças. Na terra de Anita, uma iniciativa familiar pretende reunir boa parte da produção literária de Márcio José Rodrigues em uma publicação que nasce com um propósito que vai além de colocar seus escritos em circulação: preservar uma vida inteira dedicada às palavras.
Pelas mãos do filho, Márcio Rodrigues Filho, o projeto de reunir a obra do pai começa a ganhar forma. A proposta foi contemplada no Edital Elisabete Anderle de Estímulo à Cultura 2026, promovido pela Fundação Catarinense de Cultura (FCC), e prevê a publicação de uma grande coletânea de contos, poesias e fábulas produzidos ao longo dos anos pelo escritor.
A ideia, segundo o filho, surgiu de um desejo antigo: reunir em uma única obra uma produção literária que, até então, estava dispersa. Mais do que uma nova publicação, trata-se de deixar registrado um conjunto de histórias, pensamentos e expressões que representam a trajetória intelectual e a sensibilidade do autor:
“É uma forma de a gente ter isso tudo reunido, uma produção de qualidade”, explica Márcio Rodrigues Filho, ao contar sobre a decisão de transformar em livro um acervo que reúne boa parte dos textos escritos pelo pai.
O projeto também carrega uma motivação afetiva. Diante da idade e da baixa visão do escritor, a família entendeu que era o momento de concretizar um desejo que já existia havia bastante tempo. A intenção é que Márcio não seja apenas o nome na capa, mas participe ativamente da construção desse registro, inclusive emprestando sua voz às próprias histórias.
Um dos aspectos mais especiais da publicação está justamente na forma como esses textos foram concebidos. Para o filho, os contos do pai não são necessariamente escritos para serem apenas lidos, mas também para serem contados. Por isso, a proposta prevê uma experiência que preserve a oralidade e a maneira particular de narrar do autor.
A obra terá edição impressa, versão digital e audiolivro. Nesta última, a intenção é registrar a própria voz de Márcio, permitindo que as histórias sejam ouvidas na interpretação de quem as criou.
A iniciativa também amplia o acesso à literatura. O audiolivro e os recursos de acessibilidade foram pensados especialmente para pessoas cegas ou com baixa visão, condição que também faz parte da realidade do próprio escritor.
Para viabilizar essa etapa, o projeto contará com o trabalho de Hugo Lapolli Ise, engenheiro de som que ficará responsável pela parte de gravação e produção sonora.
UMA ALDEIA DE HISTÓRIAS, PALAVRAS E MEMÓRIA
O título provisório da coletânea é Estórias de Minh’aldeia, uma escolha que também revela a intenção de preservar características de uma época e de uma linguagem que vêm se transformando com o passar das gerações.
Segundo Márcio Rodrigues Filho, o pai teve uma formação que inclui o estudo do latim e conserva em seus escritos expressões, construções e nuances linguísticas que hoje são cada vez menos frequentes. A obra, portanto, também pretende funcionar como um registro de linguagem e de um recorte histórico.
Há ainda um componente regional importante. A coletânea reúne histórias, referências e elementos ligados ao universo local, compondo um mosaico de narrativas que dialogam com a cultura e a memória.
A publicação terá projeto gráfico do comunicador Fernando Faísca Rosa. A equipe conta ainda com Eduardo Henrique, responsável pela revisão, além de Hugo Lapolli Ise, na produção sonora. Márcio Rodrigues Filho assina a autoria do projeto e a produção executiva.
O cronograma prevê seis meses de execução a partir da assinatura do contrato, ainda pendente, com expectativa de formalização em dezembro. Os textos já estão compilados e passarão pelas etapas de revisão, preparação e diagramação.
Talvez a parte mais bonita dessa história esteja na motivação que deu origem ao projeto. Ao reunir os escritos do pai, “Marcinho” não está apenas organizando uma coletânea literária. Está criando condições para que essas histórias continuem existindo, circulem e encontrem novos leitores e ouvintes. Afinal, há heranças que não cabem em objetos ou documentos. Algumas são feitas de palavras, histórias e da maneira como alguém enxerga e interpreta o mundo… e, neste caso, é o filho quem se encarrega de organizar as páginas para que a voz do pai continue contando.


