Quando a gente percebeu, já era primavera. Não deu tempo de subir as roupas de lã para a parte mais alta do guarda-roupa, e o colorido das flores já enfeitava o jardim. Confesso que fiquei um tanto confusa, porque, em visita à casa de uma cliente, encontrei uma guirlanda na porta anunciando o Natal.
Ri quando vi. Não sei se ri dela, com ela ou de nervoso. Mal consegui saborear a primavera, as roupas de meia-estação, o vento nordeste bagunçando os cabelos e o Natal, com seu verão, já está me empurrando para a próxima estação. Que tempo maluco é esse? Que pressa é essa de chegar a lugar nenhum?
Mal entramos em novembro e o Papai Noel já está subindo no telhado, enquanto o El Niño nem nos deixou curtir o sol direito.
Entre as brincadeiras e as verdades que essa correria nos revela, uma certeza fica cada vez mais clara: estamos vivendo tempos acelerados. Cheios de pressa, sem tempo a perder e, muito menos, a esperar.
Ligamos o modo automático. Às vezes, pego-mepensando na insensatez de querer que o amanhã chegue logo. Queremos que os problemas se dissolvam rapidamente e que a tal “glória” nos espere lá na frente, no futuro. Mas seguimos sem perceber que o tempo que passa, o presente que vivemos, é a própria vida acontecendo. Talvez a glória não esteja tão distante quanto imaginamos. Talvez ela esteja justamente aqui, no contato único e exclusivo conosco, no cuidado com a semente que plantamos hoje e que poderá nos oferecer, amanhã, a tranquilidade que tanto desejamos.
Confundo-me inúmeras vezes com ele, o tempo. Às vezes, parece tão fugaz; em outras, tão intenso que se torna inseparável de nós. Há situações das quais ele parece não nos afastar jamais, enquanto, em outras, nos coloca tão profundamente dentro delas que mal conseguimos perceber o que acontece ao redor. E é nessa confusão que passamos a ansiar por sei lá o quê. Sei lá para quê.
Trabalhoso esse entendimento. Complexo, na verdade. Por mais que tentemos estar presentes, a distração nos rouba de nós mesmos. E é justamente ali que nos perdemos: na velocidade do outro, na pressa de chegar, na ansiedade de conquistar, sem sequer desfrutar do caminho.
Na arquitetura, aprendi que nem mesmo o planejamento mais cuidadoso consegue determinar o tempo exato das coisas. Podemos até tentar controlar cada etapa, mas isso, muitas vezes, nos custa alguns cabelos brancos desnecessários. O imprevisto acontece. O funcionário atrasa por alguma razão, o material chega errado, uma etapa precisa ser refeita. E, inevitavelmente, perdemos tempo ou, quem sabe, ganhamos outro.
Porque o tempo também nos ensina que nem tudo acontece quando queremos, nem da maneira como planejamos. Há coisas que exigem espera, outras que pedem mudança de rota. E talvez a sabedoria esteja justamente em aprender a lidar com aquilo que não podemos controlar, sem permitir que a pressa nos roube a experiência de viver.
Afinal, de que adianta chegar tão depressa se, no caminho, deixamos de perceber as flores da primavera?
Talvez seja hora de deixar o Papai Noel subir no telhado no tempo dele, guardar as roupas de lã sem tanta aflição e permitir que cada estação nos encontre por inteiro. Não precisamos correr para alcançar a vida. Ela já está acontecendo.
