Aquicultura e Pesca

O porquê de se conservar: A importância de manter variados habitats na paisagem e a pesca de camarões

Vivemos em um planeta heterogêneo em termos ambientais.  Em escalas globais, nosso planeta é composto por diferentes áreas, onde a incidência solar e a influência de massas de ar e de correntes oceânicas são as principais forças que moldam os ambientes e criam diferenças entre estes. Em escalas menores, temos que os ecossistemas são formados por variados habitats ou áreas que possuem condições e recursos ecológicos desiguais. Um exemplo de ecossistema formado por variados habitats em sua extensão é o conjunto de lagoas costeiras que existe em nossa região. Nestas lagoas temos áreas de vegetação, como marisma e mangue, que são comumente alagadas e fornecem abrigo para os organismos jovens de diversas espécies. Áreas próximas a desembocaduras de rios, como o Tubarão e o D’Una, possuem especificidades ocasionadas pela mistura de águas. Existe também o canal, onde algumas espécies passam parte de sua vida, enquanto outras utilizam somente para se locomover entre épocas do ano. Muitas das espécies que vivem em nossas lagoas utilizam estes habitats ao longo de suas fases de vida. O camarão-rosa é um destes organismos. Existem duas espécies de camarão-rosa exploradas pela pesca no litoral sul/sudeste, Farfantepenaeus paulensis e Farfantepenaeus brasiliensis, sendo que a primeira é a predominante nas lagoas Santo Antonio, Imaruí e Mirim. A reprodução destes organismos se inicia em águas oceânicas, onde camarões adultos de 7 até 12 meses de idade participam do evento reprodutivo em áreas profundas. Os ovos e larvas originados são trazidos para próximo da costa por movimentações da água e, posteriormente, as larvas planctônicas adentram nas áreas de estuário. Na fase estuarina, estes organismos ficam até a fase pré-adulta (cerca de 4 meses), dependentes de áreas rasas, abrigadas e com vegetação, onde obtém proteção e alimento para seu crescimento. Quando se tornam adultos fazem uma migração ativa para águas com maior salinidade e, à medida que crescem, vão se direcionando para áreas mais profundas, onde se inicia este ciclo mais uma vez, como ocorre há milhares de anos. Ao entendermos este ciclo, vemos que a pesca dentro do estuário atua sobre os indivíduos jovens de camarão, que ainda não participaram de um evento reprodutivo. Uma retirada demasiada destes indivíduos potencialmente prejudicará o futuro da população em nossas lagoas. Por isto, a pesca no estuário deve ser feita com responsabilidade e respeitando os limites do ambiente. Notamos também a importância de conservarmos habitats para mantermos o ambiente “funcionando” e para que existam populações em suas condições naturais. Diversos impactos ambientais ocorrem em nossa região, como a deposição irregular de lixo, esgotos clandestinos, efluentes industriais e agrícolas e a sobrepesca. Todos eles são ocasionados pelo homem. Caso gostem de camarão, devemos exigir a redução destes impactos e zelar pela conservação de nossas lagoas.

Por:
Prof. Dr. Eduardo Guilherme Gentil de Farias, Engenheiro de Pesca
Prof. Dr. Giovanni Lemos de Mello, Engenheiro de Aquicultura
Prof. Dr. Jorge Luiz Rodrigues Filho, Biólogo
Prof. Dr. Maurício Gustavo Coelho Emerenciano, Zootecnista
aquicultura.pesca@gmail.com

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