Antes de qualquer corte na madeira, existe um olhar. É ele quem enxerga, dentro de um pedaço de tronco, uma canoa que ainda não nasceu. Depois vêm a paciência, a precisão e o respeito por uma tradição secular. Assim trabalha Felipe Figueiredo, morador do Ribeirão Pequeno, que encontrou na arte de esculpir miniaturas de embarcações uma forma de manter viva parte da identidade de Laguna.
A vocação surgiu muito antes das primeiras canoas. Ainda criança, Felipe passava horas desenhando, esculpindo pequenos objetos e observando artesãos do bairro. Recorda, com carinho, um antigo morador que fabricava carros e cangas de boi em um engenho próximo de sua casa. Fascinado pela habilidade das mãos daquele homem, descobriu cedo que também queria transformar madeira em arte.
O impulso definitivo veio na adolescência, quando conheceu um vizinho paranaense apaixonado por trabalhos manuais. Foi dele que aprendeu os primeiros movimentos com a faca, esculpindo um simples tatu-bola. A lição, porém, foi muito maior do que produzir uma peça.
“Foi ali que entendi que o artesanato tem etapas. Não é força. É calma, paciência e processo.”
Anos depois, já adulto, resolveu enfrentar um desafio maior: reproduzir as embarcações típicas da região. Não havia quem ensinasse. Aprendeu praticamente sozinho, pesquisando ferramentas, desenvolvendo técnicas próprias e adaptando instrumentos para alcançar o nível de fidelidade que buscava.
Hoje, cada miniatura nasce a partir de cálculos de escala, permitindo reproduzir proporcionalmente comprimento, largura e altura das embarcações originais. Ferramentas que o próprio Felipe fabrica ajudam a esculpir o interior dos cascos, etapa que considera uma das mais delicadas do trabalho.
Entre as peças estão as tradicionais canoas de lagoa, os batelões e as canoas bordadas, cada uma carregando características próprias. A bordada, por exemplo, possui uma borda inclinada que desvia a água das ondas, solução criada pelos antigos pescadores para enfrentar melhor o mar.
Se uma canoa simples pode ficar pronta em cerca de dois dias, uma embarcação maior exige quase uma semana de trabalho. O maior desafio, explica, é garantir que o casco fique perfeitamente simétrico. “Uma canoa torta não navega direito”, resume.
A primeira miniatura permanece guardada até hoje. Feita sem escalas e sem a técnica que domina atualmente, ela representa o início de uma caminhada que ganhou força durante a pandemia, quando as encomendas aumentaram e passaram a chegar de diferentes partes do Brasil. Algumas já viajaram até São Paulo, encontrando lugar em coleções particulares e casas de pessoas apaixonadas pela cultura litorânea.
Apesar do reconhecimento, Felipe diz que o maior retorno não é financeiro.
“O melhor é quando alguém recebe a peça e diz que realizou um sonho. Já teve gente que se emocionou. Aí todo o trabalho vale a pena.”
Mais do que reproduzir embarcações, ele preserva uma memória construída por gerações de pescadores. Em cada detalhe estão presentes os conhecimentos de quem fez da lagoa e do mar seu modo de vida.
Embora sonhe em transmitir esse ofício para outras pessoas, ainda não encontrou um aprendiz disposto a seguir esse caminho. Mesmo assim, mantém a esperança.
“Se aparecer alguém interessado de verdade, faço questão de ensinar.”
Enquanto esse dia não chega, Felipe segue sozinho em sua oficina, dando forma à madeira. E, silenciosamente, faz muito mais do que construir miniaturas: mantém flutuando uma parte da história de Laguna, provando que o patrimônio de uma cidade também pode caber na palma das mãos.

